Exposição no Palacio Paredes (Embaixada do Brasil na Argentina), com curadoria de Nara Cristina Santos.
9 jun – 25 jul 2026
SOSPECHOSAS expande-se como uma grande instalação nas salas do Espaço Cultural Palácio Pereda/Embaixada do Brasil, em distintas séries expositivas, e cada uma delas apresenta uma maneira singular de experienciar a pesquisa em Arte, Ciência e Tecnologia de Giselle Beiguelman.
A partir da Arte Contemporânea, a artista brasileira estabelece um diálogo com diferentes áreas do conhecimento para tratar de modo crítico as inter-relações com a Botânica e a Inteligência Artificial (IA), do passado colonial ao presente algorítmico, considerando temas relevantes como o patriarcado, a misoginia, o racismo e o silenciamento de saberes ancestrais no contexto latino-americano.
O argumento curatorial transdisciplinar desta exposição está baseado no conceito de “ação incorporada” de Varela, Thompson e Rosch (2003), que entendem a cognição como resultado da interação entre o corpo físico e o seu entorno. Esse é o fundamento da concepção de “autoria incorporada” defendida aqui. Uma \ obra de arte feita em cooperação com a IA compreende o artista e sua poética criativa, as grandes bases de dados, os algoritmos complexos e seus programadores. Portanto, não se trata apenas de uma autoria compartilhada, mas de uma autoria incorporada, que marca a relevância da intencionalidade da artista ao criar com IA e de interagir criticamente com os dados.
A “impercepção” também é um conceito importante para entender esta mostra. Compreendido a partir da “impercepção botânica” de Ursi e Salatino (2022), trata da inexistência ou limitação da percepção para substituir o de “cegueira botânica”, conforme Wandersee e Schussler (1999, 2001), que remete à incapacidade humana de perceber as plantas no ambiente, ignorando sua importância ecológica e biológica. A impercepção surge nesta exposição como um termo desafiador para repensar a interação do humano com o entorno natural e cultural, seja com espécies ou máquinas companheiras.
SOSPECHOSAS reúne plantas vivas, artificias e ficcionais que coexistem no ambiente da mostra com imagens impressas, projetadas e vídeos. A exposição aproxima-se da ciência para entender não apenas a natureza das plantas e dos fungos, mas para associá-la às tradições simbólicas da cultura, de ritos e curas. Enfatiza o papel de artistas-cientistas, mulheres cujo reconhecimento público tardou ou inexistiu em razão do preconceito de gênero de cada época, e se aproxima da tecnologia ao fazer uso da IA, ao mesmo tempo em que rebate sua lógica algorítmica.
A primeira sala apresenta a série Cogumalhos, imagens impressas e amostras de cogumelos e alho, tradicionalmente identificados como elementos de “poções suspeitas” ou “símbolo de proteção”, atrelados às histórias de mulheres e bruxas. Na segunda, a série Quintal das Plantas que se Bifurcam, título inspirado em “El jardín de los senderos que se bifurcan” (Borges, 1941), traz uma instalação com dados técnicos e científicos, imagens e vídeos, plantas vivas e artificiais, espécies naturais e inventadas, ervas que são referenciais para uso medicinal ou ritual. Na terceira, a inédita série Herbarium faz uma homenagem à pesquisa botânica argentina e apresenta plantas regionais documentadas, em pranchas científicas (exsicatas) e imagens projetadas. Na quarta e última sala, a série Artistas-Cientistas valoriza a presença de mulheres silenciadas ou quase apagadas da história e inclui um retrato, especialmente
elaborado para esta exposição, da pioneira argentina Margarita Zatzkin.
O conjunto dos “retratos especulativos” criados com IA identifica dez pesquisadoras no final de suas vidas, em simbiose com suas descobertas, por meio de imagens impressas que confrontam o etarismo do nosso tempo. A exposição demanda outros modos de reconhecimento da natureza e da cultura, da ciência e da tecnologia, em confronto com pensamentos hegemônicos. É um convite a uma experiência individual e uma vivência coletiva, ao reencontro da sensibilidade estética, da consciência crítica e de um compromisso sustentável com o nosso entorno mais imediato.
Nara Cristina Santos e Fernando Codevilla
Museu de Arte, Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de Santa Maria (MACT-
UFSM)
Curadores
Design: Mariel Szifman
Fotos: Georgina García